Evaristo ToneStrategy & AI Specialist
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February 2026
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NOVITAS AI #1

Inteligência Artificial: definição, fundamentos e enquadramento

O que é a Novitas AI

A Novitas AI nasce da convicção de que a Inteligência Artificial deixou de ser apenas um domínio técnico ou académico. Hoje, a IA é simultaneamente ciência de fronteira, tecnologia habilitadora, infraestrutura económica e instrumento de poder geopolítico.

Num contexto em que os ciclos de inovação superam os tempos da regulação, da política e até do consenso científico, esta newsletter propõe-se ler a IA com metodologia, distância crítica e, com certa profundidade estratégica (embora em textos curtos e de fácil leitura). A proposta é seguir evidências do que se pensa, se escreve, se diz, se produz e do respectivo impacto no mundo, nas pessoas, nos estados e economias em matéria de Inteligência Artificial.

Como é de esperar, começamos este primeiro número da newsletter NOVITAS AI - O ESTADO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO MUNDO, recordando o conceito de inteligência artificial, que tem sido definido como o conjunto de sistemas computacionais concebidos para executar tarefas que exigem capacidades cognitivas, como aprender a partir de dados, reconhecer padrões, tomar decisões e gerar conteúdos, com diferentes graus de autonomia, sem necessidade de programação explícita para cada situação.

Na sua forma contemporânea, a IA resulta da combinação de modelos matemáticos avançados, grandes volumes de dados e elevada capacidade computacional, permitindo que máquinas aprendam, generalizem e actuem em contextos complexos e dinâmicos.

Numa palavra, quando falamos de IA, estamos a falar de sistemas que actuam independentemente, copiando a forma como os humanos pensam e resolvem problemas.

O que hoje designamos por IA resulta essencialmente da convergência de pelo menos, cinco pilares:

(1) Modelos matemáticos e algorítmicos, em particular redes neurais profundas, os chamados transformers (modelos de IA que usam mecanismos de atenção para compreender contexto e relações entre dados) e métodos probabilísticos;

(2) Dados em escala massiva, estruturados e não estruturados, provenientes da digitalização global (aqui o advento do Big Data ajudou muito);

(3) Capacidade computacional, baseada em GPUs, TPUs (chips optimizados para acelerar modelos de Inteligência Artificial) e infraestruturas de computação de alto desempenho (a empresa Nvidia é uma impulsionadora neste aspecto);

(4) Arquitecturas de softwares que permitem treino, inferência e integração em sistemas produtivos;

(5) Capital financeiro e organizacional, capaz de sustentar ciclos longos de investigação e desenvolvimento.

A combinação destes factores, e de outros, que exploraremos no decorrer das rúbricas seguintes, explica por que razão a IA não emergiu plenamente antes e por que razão o seu avanço actual é tão rápido quanto estrutural.

IA como força sistémica

Em pleno 2026, a Inteligência Artificial deixou de ser experimental para se tornar estrutural. Já não é uma tecnologia periférica ou complementar, é um sistema operativo invisível da modernidade. Tornou-se difícil imaginar os próximos desenvolvimentos da humanidade, quer sejam científicos, económicos ou institucionais, sem a sua intervenção directa.

Na Ciência, a IA acelera descobertas em matemática, física, biologia molecular, química e medicina. Modelos avançados exploram espaços de solução que ultrapassam a intuição humana, identificando padrões e hipóteses que reconfiguram o próprio método científico. A investigação deixa de ser apenas empírica e teórica para se tornar também algorítmica e preditiva.

Na Tecnologia, modelos fundacionais são integrados em motores de busca, sistemas operativos, plataformas empresariais, sistemas de defesa, saúde e educação. A IA transita do laboratório para as infraestruturas críticas, tornando-se camada transversal de funcionamento das sociedades digitais.

Nos Mercados e na Concorrência, a IA consolidou-se como vantagem competitiva decisiva. Organizações com acesso privilegiado a dados, talento especializado e capacidade computacional reforçam posições dominantes e elevam barreiras à entrada. Simultaneamente, startups ágeis procuram capturar nichos estratégicos e criar disrupção.

O inverso também é verdadeiro, Estados, empresas e indivíduos que permanecem à margem da adopção inteligente de IA arriscam-se a perder capacidade analítica, eficiência decisória e visão estratégica. Num mundo orientado por dados e algoritmos, a exclusão tecnológica traduz-se em vulnerabilidade competitiva.

A Inteligência Artificial já não é apenas uma ferramenta de optimização. É uma arquitectura de poder, conhecimento e produtividade que reconfigura os equilíbrios globais. De facto, neste particular, os países africanos, do qual Angola é parte, são chamados a olhar a IA como um dos vetores mais importantes a ser estrategicamente abordado, numa perspectiva de aliada, no alcance das principais metas nacionais quer sejam económicas quanto sociais.

Na Geopolítica, os Estados passaram a encarar a Inteligência Artificial como um activo estratégico comparável à energia, às telecomunicações ou à defesa. A disputa por semicondutores, talento altamente qualificado, cadeias de fornecimento resilientes e soberania digital intensifica-se a um ritmo acelerado. Basta observar a rivalidade tecnológica entre os Estados Unidos e a China para compreender a centralidade geopolítica desta tecnologia, hoje considerada nevrálgica para a liderança económica, militar e científica global.

No plano da segurança, a IA redefine os equilíbrios de poder. Na ciberdefesa e na ciberguerra, algoritmos avançados operam na fronteira de novas formas de protecção das soberanias nacionais, mas também de projecção de poder ofensivo. Sistemas autónomos, análise preditiva de ameaças e armas inteligentes ampliam exponencialmente as capacidades militares, com repercussões profundas nos cenários tradicionais de conflito.

À medida que as fronteiras físicas se tornam mais porosas, diluídas e o ciberespaço se consolida como arena estratégica, a gestão do risco torna-se mais complexa. Nesse contexto, a Inteligência Artificial emerge simultaneamente como escudo e espada, portanto, como instrumento de defesa, mas também vector de vulnerabilidade. Está em jogo não apenas a protecção de activos críticos, mas a própria estabilidade institucional, a coesão social e a preservação da paz.

A Inteligência Artificial já não é apenas uma força que influencia o mundo, podemos agora afirmar sem sombras de dúvidas que ela estrutura o tecido do mundo.

Principais linhas de actuação da IA no mundo

Apesar da diversidade quase ilimitada de aplicações, podemos destacar algumas linhas estruturantes que definem o seu uso dominante:

Automação Cognitiva, a IA é amplamente utilizada na automatização de tarefas administrativas, jurídicas, financeiras e técnicas. Vai além da simples automação mecânica: interpreta documentos, analisa contratos, elabora relatórios, processa grandes volumes de dados e apoia decisões complexas, aumentando eficiência e reduzindo custos operacionais.

IA Científica, orientada para descoberta e simulação, a IA científica acelera a modelação de fenómenos físicos, químicos e biológicos, permitindo testar hipóteses, prever comportamentos e explorar cenários que seriam impraticáveis apenas com experimentação tradicional.

IA Industrial e Logística, aplicada à optimização de cadeias de valor, manutenção preditiva, controlo de qualidade e gestão de inventário, a IA torna os sistemas produtivos mais eficientes, resilientes e adaptativos, reduzindo desperdícios e aumentando a competitividade.

IA de Segurança e Defesa, utilizada para reforçar ecossistemas de cibersegurança, detecção de ameaças e análise estratégica, a IA eleva a capacidade de monitorização, prevenção e resposta em ambientes de risco crescente, tanto no domínio digital como no físico.

IA Generativa, provavelmente a vertente mais conhecida do público em geral, a IA generativa aplica-se à criação de texto, código, imagem, áudio e vídeo. Democratizou o acesso à produção de conteúdos sofisticados e tornou-se ferramenta transversal em comunicação, marketing, educação, desenvolvimento de software e indústrias criativas (os casos mais paradigmáticos são o ChatGPT e o Gemini, amplamente usados em quase todos os sectores).

Agentic AI (IA Agentiva)

Refere-se a sistemas capazes de executar objectivos complexos de forma semi-autónoma, planeando acções, tomando decisões e interagindo com múltiplos sistemas. Estes agentes digitais simulam equipas humanas, actuam de forma independente, mas coordenada. Podemos mesmo afirmar que os agentes de IA são verdadeiros “colaboradores algorítmicos”, porque de facto, funcionam como se fossem trabalhadores humanos, executando tarefas tradicionalmente feitas por estes.

Como se pode observar, a IA deixou de ser uma ferramenta isolada, aplicável a um universo mais académico e científico, assumindo agora como uma camada transversal da actividade humana. Está integrada nos processos, nas decisões e nas infraestruturas, está efectivamente, em todo o lado.

O investimento global em IA

Nunca se investiu tanto em Inteligência Artificial como agora. O que começou como uma corrida tecnológica transformou-se numa mobilização económica de escala histórica. “Estamos no início de uma nova revolução industrial”, disse recentemente Jensen Huang, CEO da NVIDIA e os números sugerem que não se trata de hipérbole.

De acordo com a Gartner, os gastos globais com IA, incluindo software, hardware e serviços, deverão atingir cerca de 2,5 trilhões de dólares já neste ano de 2026, com crescimento anual superior a 44%. Trata-se de um volume impulsionado sobretudo pela construção de infraestruturas capazes de sustentar modelos generativos e sistemas empresariais de larga escala (Gartner, 2026)

As estimativas variam conforme a métrica. A Statista projeta receitas directas do mercado entre 300 e 400 mil milhões de dólares neste ano e 1,2 trilhões de dólares até 2030, enquanto a Grand View Research aponta para valores que podem ultrapassar os 500 mil milhões, só neste ano. A divergência metodológica é secundária. O consenso é inequívoco, a IA tornou-se o sector tecnológico de crescimento mais acelerado da economia global (alías, nunca nenhum sector cresceu tanto, por isso, muitos analistas aventam uma possível bolha futura).

Mais de metade do investimento concentra-se em infraestrutura, centros de dados de alta performance, semicondutores avançados, redes especializadas e sistemas energéticos capazes de suportar cargas computacionais massivas. A disputa por GPUs é hoje tão estratégica quanto, no passado, a corrida pelo petróleo. E a escassez de talento em machine learning (aprendizagem máquina) e arquitectura de sistemas tornou-se um gargalo crítico, elevando salários e transformando investigadores em activos geopolíticos.

Nenhum país investe tanto quanto os Estados Unidos. A liderança americana combina capital privado abundante, coordenação estatal e alianças internacionais. Podemos citar aqui o exemplo do Stargate Project, lançado por Donald Trump em Janeiro de 2025 (OpenAI, 2025) iniciativa estratégica voltada para a expansão de mega infraestruturas de computação, tendo como empresas fundadoras a OpenAI, Softbank, Oracle e a MGX, que mobilizou de início 100 mil milhões de dólares com a sua institucionalização e poderá atingir os 500 mil milhões de dólares até 2029. Conta com o apoio da administração Trump, visando garantir supremacia no treino de modelos de larga escala e liderança global da IA pelos Estados Unidos.

No sector privado, a Meta anunciou planos de investimento que poderão ultrapassar 162 mil milhões de dólares a 169 mil milhões anuais já neste ano (CNN Brasil, 2026). Grande parte deste investimento será direcionada para chips, centros de dados e desenvolvimento de modelos fundacionais próprios. Gigantes como Microsoft, Google e OpenAI reforçam a mesma lógica, quem controla a infraestrutura controla o ritmo da inovação, e claro, controla o mercado.

No plano geoeconómico, a administração Trump tem ainda aprofundado parcerias estratégicas com a Arábia Saudita, cujos fundos soberanos comprometeram dezenas de mil milhões de dólares em tecnologia e IA, parte substancial canalizada para empresas e infraestruturas nos EUA, no âmbito da estratégia de diversificação saudita.

A aposta não é apenas industrial. A própria Casa Branca, em articulação com a National Science Foundation e o Departamento de Defesa, lançou programas de capacitação em IA para milhares de funcionários federais. O orçamento público destinado à integração de IA em defesa, segurança e serviços públicos já soma dezenas de mil milhões de dólares anuais. A inteligência artificial deixou de ser apenas prioridade empresarial; tornou-se política de Estado.

Do outro lado do Pacífico, a China consolida-se como principal concorrente estratégico. Lidera em volume de publicações científicas em IA e investe maciçamente em aplicações industriais. Em áreas como visão computacional, já rivaliza ou supera padrões internacionais. O seu maior obstáculo permanece o acesso a semicondutores de ponta, face às restrições tecnológicas impostas por Washington. Ainda assim, Pequim aposta em eficiência algorítmica e modelos menos intensivos em energia, um caminho que pode alterar a arquitectura dominante da IA, conforme afirmou Victor Bianchin “a China não tem outra opção. Ou desenvolve sua própria tecnologia de fabricação de semicondutores de ponta ou perderá a disputa pela supremacia mundial para os EUA. Sem chips avançados 100% chineses, sua capacidade militar, o desenvolvimento de seus modelos de inteligência artificial (IA) e a competitividade de suas empresas de tecnologia serão prejudicados no médio prazo”.

A União Europeia segue uma via distinta. Com a aprovação do EU AI Act, Bruxelas tornou-se pioneira na regulação abrangente da tecnologia. A ambição é equilibrar inovação e segurança jurídica. A dúvida persiste: conseguirá competir em escala com EUA e China sem comprometer o dinamismo? A minha opinião é que será muito difícil.

Enquanto isso, grande parte do mundo observa à margem. Países sem capacidade computacional própria, energia abundante ou ecossistemas robustos de investigação enfrentam o risco de dependência estrutural. Uma nova linha divisória começa a delinear-se, não apenas entre quem possui os melhores algoritmos, mas entre quem controla data centers de alta performance, fluxos globais de dados, redes energéticas e cadeias de fornecimento de chips.

Como alertou Henry Kissinger ao refletir sobre inteligência artificial e ordem mundial, estamos diante de uma tecnologia capaz de reconfigurar os equilíbrios de poder globais. A IA está a cristalizar novas assimetrias, países com acesso a capital, energia e talento acumulam vantagens exponenciais; os demais arriscam-se a tornar-se meros consumidores de sistemas concebidos alhures.

Para África, o desafio é particularmente agudo. Integrar cadeias de valor, investir em formação técnica e infraestrutura digital, ou aceitar uma nova divisão internacional do trabalho, desta vez algorítmica.

A questão já não é se a inteligência artificial transformará o mundo. A questão é quem deterá os alicerces dessa transformação e, com eles, o poder de moldar o século XXI e adiante.

Até a próxima semana!

Evaristo Tone

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