Evaristo ToneStrategy & AI Specialist
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March 2026

NOVITAS AI #2

A Pobreza de Dados e a Infra-estrutura Crítica de IA em África e o Impacto da Guerra do Irão na Geopolítica de IA

1. INTRODUÇÃO

A promessa da Inteligência Artificial em África

África é, hoje, palco de uma contradição histórica de enorme magnitude. O continente possui os ingredientes brutos de uma revolução tecnológica, como os minerais críticos essenciais para a fabricação de semicondutores, uma população jovem e crescente, cidades em acelerada expansão e o maior potencial de energia renovável do planeta. E, no entanto, encontra-se estruturalmente à margem da revolução que esses mesmos recursos estão a alimentar no resto do mundo.

A Inteligência Artificial oferece à África uma oportunidade singular, pode permitir saltar etapas de desenvolvimento que, nas gerações anteriores, exigiram décadas de industrialização progressiva. Na saúde, agricultura, educação, finanças e governação pública, a IA pode comprimir o tempo, acelerar ganhos de produtividade e democratizar o acesso a serviços que milhões de cidadãos nunca tiveram.

“A nova revolução tecnológica está a desdobrar-se exactamente no momento em que África detém a população mais jovem do mundo, as cidades de crescimento mais rápido, minerais críticos essenciais e o maior potencial de energia renovável do planeta.” (PNUD, 2025)

Riqueza energética versus pobreza de dados

É amplamente conhecida a riqueza de África quanto ao seu potencial energético e recursos naturais. Contudo, e paradoxalmente, o continente é pobre naquilo que, na era da IA, constitui o recurso mais estratégico: os dados. Dados suficientes, de qualidade, contextualizados à realidade africana, digitalizados e acessíveis de forma estruturada.

E então, no final de Fevereiro de 2026, o mundo mudou de forma abrupta. A guerra eclodiu no Médio Oriente. Com ela surgiu uma janela de oportunidade para África que nunca existira antes, que se abre exactamente na intersecção entre a vulnerabilidade do Golfo Pérsico e as vantagens latentes do continente africano.

2. A GUERRA DO IRÃO E O NOVO PARADIGMA DE SEGURANÇA DOS DATACENTERS

Um acontecimento sem precedentes históricos

Representação de edifício do datacenter Amazon AWS a arder. Fonte: FACIALIX

Em 28 de Fevereiro último, Israel e os Estados Unidos lançaram operações militares conjuntas contra o Irão, numa acção baptizada de “Roaring Lion” e “Operation Epic Fury”, alvejando instalações nucleares, infra-estruturas do Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC) e locais estratégicos em Teerão, Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah. O Irão respondeu com vagas de mísseis balísticos e drones contra Israel, os Emirados Árabes Unidos, o Barém, o Qatar, a Arábia Saudita e bases americanas na região. O que se seguiu foi historicamente inédito. Pela primeira vez na história, data centers hiperescala comerciais norte-americanos foram directamente atingidos por ataques físicos em tempo de guerra. A Amazon Web Services confirmou que dois data centers nos Emirados Árabes Unidos foram “directamente atingidos” e uma terceira instalação no Barém foi também danificada. “Estes ataques causaram danos estruturais, interromperam o fornecimento de energia às nossas infra-estruturas e, em alguns casos, exigiram activação de sistemas de supressão de incêndios que resultaram em danos adicionais por água”, declarou a empresa.

“A infra-estrutura cloud sempre foi teoricamente vulnerável à guerra cinética, mas ninguém tinha incorporado esse risco nos seus modelos até agora. Isso tem de mudar.” (Lukasz Olejnik, King’s College London, Março 2026)

Datacenters como alvos militares

A dimensão estratégica deste ataque não pode ser subestimada. Segundo Patrick J. Murphy, director executivo da unidade geopolítica da consultora Hilco Global, “o Irão e os seus proxies visaram no passado campos petrolíferos, mas os ataques aos data centers nos EAU mostram que eles são agora considerados infra-estrutura crítica”. A CNBC reportou que governos em todo o mundo começam a integrar data centers nos seus planos nacionais de segurança, ao lado de centrais eléctricas, redes de telecomunicações e instalações de tratamento de água.

O problema vai além dos edifícios físicos. Segundo a Rest of World, dezassete cabos submarinos passam apenas pelo Mar Vermelho, transportando a maioria do tráfego de dados entre a Europa, a Ásia e a África. A Guarda Revolucionária do Irão declararam o Estreito de Ormuz encerrado a 3 de Março. “Fechar ambos os pontos de estrangulamento simultaneamente seria um acontecimento globalmente disruptivo”, afirmou Doug Madory, director de análise de internet na empresa Kentik.

O fim do paradigma do Golfo como “porto seguro”

Por anos, os governos do Golfo Pérsico fizeram promessas de garantir estabilidade, segurança e energia às empresas do Vale do Silício. A Rest of World concluiu que os acordos de segurança que rodeavam esses investimentos foram concebidos para uma contingência completamente diferente, que residia essencialmente em controlar os chips norte-americanos, mantendo-os longe da China. Nunca foi uma segurança que implicasse proteger edifícios físicos de ataques com mísseis balísticos. “A segurança física de infra-estruturas digitais estratégicas pode ter sido assumida como parte da defesa nacional mais ampla, sem nunca ter sido tratada como uma vulnerabilidade distinta”, disse Ali Bakir, da Universidade do Qatar.

Em tecnologias de informação, o corolário práctico é imediato, portanto, a forma mais barata de proteger dados críticos é duplicá-los e armazenar cópias em regiões geograficamente distintas. A lógica da replicação multi-regional, que existia como boa prática, torna-se agora um imperativo estratégico de segurança nacional. É caso para dizer tecnologias críticas são integrantes naturais das estratégias de segurança de qualquer país, o cenário actual só agudiza este imperativo.

3. O PANORAMA DA IA EM ÁFRICA

Adopção e iniciativas existentes

Ao longo dos últimos anos, o ecossistema africano de IA tem crescido de forma assimétrica mas acelerada. A África do Sul possui a maior concentração de infra-estruturas de IA no continente, o Quénia expande a sua rede de fibra óptica, e a adopção de computação em nuvem cresce a uma taxa anual de 25% a 30%, segundo o relatório da Mastercard sobre IA em África (2025).

Em saúde, a IA já demonstra o seu potencial transformador. A título exemplificativo, o Departamento de Saúde da África do Sul testou soluções de diagnóstico de tuberculose (TB) que, no primeiro semestre de implementação, rastrearam 6.500 indivíduos e identificaram 187 casos de TB que de outra forma poderiam ter passado despercebidos, segundo a análise da McKinsey (2025).

No caso de Angola, o Portal de TI publicou recentemente uma notícia intitulada “Angola entre os países africanos que já integram IA na economia”, citando o relatório da Africa Data Centres Association (ADCA), que aponta para uma taxa de adopção de uso de IA no intervalo compreendido entre 1% e 10%.

Taxa de adopção de IA em África por país, incluindo Angola. Fonte: © Africa Data Centres Association (ADCA) — The Economic Report: Data Centres in Africa, Fevereiro 2026

Potenciais impactos sectoriais

O potencial da IA em África abrange domínios absolutamente críticos. Na agricultura, tema tão central nas economias africanas e de modo particular em Angola, a IA pode prever padrões climáticos e detectar doenças em culturas. Na saúde, pode apoiar diagnósticos em regiões com escassez de médicos especialistas. Nas finanças, pode democratizar o crédito para populações não bancarizadas. Na governação, pode melhorar a detecção de fraudes e a prestação de serviços essenciais. A IA pode galvanizar toda a economia do continente se bem usada estrategicamente.

“A resolução do paradoxo de computação em África poderia desbloquear entre 1,2 e 1,5 biliões de dólares em valor económico até 2030.” (World Economic Forum, Dezembro 2025)

4. O VERDADEIRO GARGALO: A POBREZA DE DADOS

Entende-se por pobreza de dados a insuficiência crónica de conjuntos de dados digitais de qualidade, suficientemente representativos, estruturados e acessíveis para treinar modelos de IA relevantes e fiáveis (no caso particular, no contexto africano). Sem dados, a inteligência artificial contextualizada não funciona.

Treinar um modelo de IA é, na sua essência, um acto de aprendizagem a partir de experiências passadas. Quanto mais ricas, diversas e representativas forem essas experiências, melhor o modelo compreende o mundo que deve servir. O problema é que o mundo que a IA hoje conhece não é o africano. Os dados que alimentaram os grandes modelos globais foram gerados maioritariamente no chamado Norte Global (Estados Unidos, Europa e Ásia desenvolvida), nas suas línguas, nos seus contextos, nas suas realidades. África ficou de fora.

As razões são várias e encadeiam-se. A digitalização dos sectores público e privado chegou tarde e avançou de forma desigual. As mais de 2.000 línguas do continente estão quase ausentes dos sistemas de linguagem que hoje potenciam assistentes virtuais, ferramentas de saúde e plataformas educativas. A desconfiança nas instituições inibiu a partilha de dados. E a ausência de infra-estruturas de armazenamento e processamento significa que mesmo os dados existentes raramente chegam a ser organizados e disponibilizados de forma útil.

A este quadro soma-se um problema de arquitectura de poder, os chamados silos de dados. Empresas e organismos públicos retêm informação por razões competitivas ou burocráticas, criando ilhas de conhecimento que não comunicam entre si. Como alerta o white paper Mastercard AI in Africa Report (2025), “o controlo exclusivo de dados para fins de concorrência pode levar a silos de informação que limitam a análise, enquanto a falta de colaboração na partilha de dados pode impedir o crescimento económico e o desenvolvimento digital.”

Quando os dados não são seus, a IA também não é

As implicações estratégicas são graves. Um modelo de IA treinado com dados dos Estados Unidos, da Europa ou da China irá replicar os padrões, os valores e os enviesamentos dessas geografias. Quando aplicado a contextos africanos, esse modelo será, na melhor das hipóteses, impreciso. Na pior, activamente nocivo, tomando decisões sobre pessoas cujas realidades nunca aprendeu a conhecer.

O estudo “Challenges and opportunities of artificial intelligence in African health space”, publicado na revista SAGE/PMC em 2025, identificou o viés algorítmico, a escassez de dados clínicos africanos e aquilo que os investigadores designam por “colonização digital” como as principais preocupações associadas ao uso de IA em saúde no continente. Trata-se de sistemas de diagnóstico que falham, de algoritmos de crédito que excluem e de ferramentas agrícolas que não reconhecem as culturas, os solos nem os climas locais. E tantos outros males que advêm desta lacuna.

Onde estão as lacunas mais críticas

Os sectores mais expostos são também os mais estratégicos para as economias africanas. Na saúde, a maioria dos registos clínicos africanos continua em papel. Doenças prevalentes como a malária, a tuberculose ou a anemia falciforme estão sub-representadas nas bases de dados globais que treinam os modelos de diagnóstico e prescrição usados no continente.

Na agricultura, onde os dados indicam que empregue mais de 60% da população activa africana, dados sobre solos, microclimas e variedades locais estão dispersos, não digitalizados e inacessíveis aos sistemas que poderiam transformá-los em recomendações accionáveis para os agricultores.

Na linguagem e cultura, a esmagadora maioria das mais de 2.000 línguas africanas está ausente dos grandes modelos linguísticos globais. Isso significa que centenas de milhões de africanos interagem com sistemas de IA que literalmente não os compreendem e que não foram concebidos para os compreender. No urbanismo, mapas detalhados, dados de mobilidade e informação sobre habitação informal são escassos ou inexistentes em formato digital para a maioria das cidades africanas, precisamente as que mais crescem e mais precisam de planeamento inteligente.

A pobreza de dados é um problema de poder, e não pode ser entendida somente e unilateralmente na perspectiva técnica e tecnológica. A tecnologia é apenas um dos ingredientes, talvez dos mais transformadores, da receita estratégica do progresso dos povos. Quem não produz dados sobre si próprio depende de outros para ser representado, e essa representação raramente serve os seus interesses.

Evaristo Tone

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